No Princípio, Criou Deus: A Criação como Fundamento de Toda Realidade

 Teologia Bíblica · Gênesis · Leitura ~10 min

Uma meditação sobre Gênesis 1:1-3 e as três afirmações mais fundamentais que a Escritura faz sobre Deus, o mundo e a luz que rompeu o caos primordial


"No princípio, criou Deus os céus e a terra. A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre a face das águas. Disse Deus: Haja luz; e houve luz."
— Gênesis 1:1-3 (ARA)

Poucos inícios na literatura humana se comparam a este. "No princípio, criou Deus os céus e a terra." Seis palavras em português — quatro em hebraico — que funcionam como uma declaração de guerra contra toda cosmovisão alternativa que o ser humano já construiu. Não há aqui qualquer pré-âmbulo, qualquer argumento filosófico, qualquer tentativa de provar que Deus existe. A Escritura começa onde começa toda realidade: no ato criador de Deus, anterior a tudo o mais, absolutamente inaugural.

Antes dessas palavras, não havia nada. Não havia tempo — porque o tempo é criado. Não havia espaço — porque o espaço é criado. Não havia caos, não havia matéria informe à espera de ser organizada. Havia apenas Deus. E então — num ato que nenhuma linguagem humana pode descrever adequadamente porque toda linguagem humana existe depois dele — Deus criou. Essa é a afirmação mais radical já feita: a origem de tudo não é um processo cósmico cego, não é uma necessidade metafísica, não é o desdobramento de uma substância eterna. É um ato pessoal, intencional, livre e soberano de um Deus que existia antes de tudo e decidiu que algo mais existisse.

Compreender esses três versículos não é apenas exercício de exegese acadêmica — é formação de cosmovisão. O modo como interpretamos nossa existência, nossa vocação, nossa relação com o mundo e com o Criador começa aqui, nessas primeiras linhas da Escritura.

Gênesis no seu Mundo: Um Texto que Contesta Cosmogonias

O contexto histórico e literário do Pentateuco

Gênesis foi escrito — na forma que o cânon preservou — no contexto do Israel do segundo milênio ou início do primeiro milênio a.C., com Moisés sendo o principal mediador da tradição (embora o texto não exija uma única data de composição para todos os seus elementos). O destinatário original era o povo de Israel — um povo que havia acabado de sair do Egito (ou estava prestes a entrar em Canaã) e que estava cercado por culturas com cosmogonias elaboradas e concorrentes.

O Egito tinha seus mitos de criação: o deus Atum surgindo das águas primordiais e dando origem a outros deuses. A Mesopotâmia tinha o Enuma Elish — o épico babilônico de criação onde o mundo surgiu do conflito entre deuses, e a humanidade foi criada do sangue de um deus morto para servir como escrava dos deuses vencedores. Nesse ambiente cultural, Gênesis 1 não é um texto neutro — é uma declaração polêmica. Cada afirmação confronta uma alternativa pagã.

Não há conflito entre deuses: há apenas um Deus, e ele cria sem oposição. As águas e o caos não são entidades divinas que resistem ao Criador — são parte do que ele organiza soberanamente. O sol e a lua não são divindades a serem adoradas (como Rá no Egito e Sin na Babilônia) — são "a grande luminar" e "a pequena luminar" (1:16), nem mesmo nomeadas com seus nomes comuns para evitar qualquer confusão com divindades. A humanidade não é criada da morte de um deus como escrava — é criada à imagem de Deus, como coroa da criação e delegatária do governo terrestre.

O gênero literário e sua finalidade

O gênero de Gênesis 1 tem sido debatido extensivamente. É prosa? É poesia? É um híbrido? A maioria dos estudiosos identifica um estilo altamente estruturado — quase litúrgico — com repetições deliberadas ("e houve tarde e manhã", "e viu Deus que era bom"), paralelos temáticos entre os dias 1-3 e os dias 4-6, e um ritmo narrativo que sugere proclamação pública. Seja qual for a classificação precisa, o propósito é claro: ensinar verdades teológicas fundamentais sobre Deus, o mundo e a humanidade — não fornecer um manual de cosmologia científica moderna.

Exegese dos Três Versículos: Cada Palavra Carrega Peso

Bereshit bara Elohim — No princípio criou Deus

A primeira palavra da Bíblia é bereshit (בְּרֵאשִׁית) — "no princípio". A partícula be pode indicar o início absoluto do tempo, ou pode ser entendida como "quando Deus começou a criar" — debate gramatical que não altera a substância teológica. O que é certo é que essa palavra coloca tudo o que segue dentro de uma temporalidade que começa aqui, que foi inaugurada pelo ato descrito a seguir.

O verbo central é bara (בָּרָא) — "criou". Este verbo é teologicamente único: no Antigo Testamento, ele é usado exclusivamente com Deus como sujeito. Seres humanos fazem, constroem, formam — mas nunca bara. A criação divina descrita por esse verbo é sem precedente e sem equivalente humano. Debate-se se bara implica necessariamente creatio ex nihilo (criação do nada) ou apenas criação de algo novo. Mas o contexto de Gênesis 1:1 — onde nada existia antes — favorece a leitura de criação absoluta do nada, posição que se tornou doutrina estabelecida da tradição cristã.

O sujeito é Elohim (אֱלֹהִים) — forma plural do termo para Deus. No hebraico bíblico, esse plural é geralmente entendido como "plural de majestade" ou "plural intensivo" — indicando a plenitude e a completude do ser divino. A tradição cristã subsequentemente enxergou aqui uma antecipação do mistério trinitário que o Novo Testamento revelaria plenamente — não uma prova direta, mas uma abertura de horizonte.

Tohu vavohu — o caos que precede a criação ordenada

O versículo 2 descreve o estado inicial: "a terra estava sem forma e vazia" — o hebraico usa tohu vavohu (תֹהוּ וָבֹהוּ), expressão aliterativa que descreve um estado de caos, vazio, desordem. Não é o caos eterno de outras cosmogonias — é o caos que Deus é prestes a organizar. Sobre esse caos, "o Espírito de Deus (Ruah Elohim, רוּחַ אֱלֹהִים) pairava (merahefet, מְרַחֶפֶת) sobre a face das águas."

O verbo rahaf (רָחַף) — "pairar", "mover-se sobre" — é usado apenas duas vezes no Antigo Testamento: aqui e em Deuteronômio 32:11, onde descreve a águia que paira sobre seus filhotes para ensiná-los a voar. A imagem é de cuidado ativo, de presença protetora e ordenadora. O Espírito de Deus não está ausente do caos — está presente nele, pronto para agir.

"O Espírito de Deus não teme o caos —
ele paira sobre ele, esperando a Palavra
que vai transformá-lo em cosmos."

Yehi or — haja luz

O versículo 3 é o mais dramaticamente simples de toda a Escritura: "Disse Deus: Haja luz (yehi or, יְהִי אוֹר); e houve luz." Dois verbos, uma palavra — e a realidade mais fundamental da criação visível existe. A luz não é criada por um processo; é criada por uma palavra. Isso é criação pela fala — creatio per verbum — e é o padrão de toda a narrativa de Gênesis 1.

A criação pela Palavra tem implicações teológicas profundas: a criação não é uma extensão necessária de Deus (panteísmo), nem a consequência de um conflito cósmico — é o resultado de um ato livre e soberano de comunicação. Deus fala, e a realidade obedece. A diferença absoluta entre o Criador e a criatura está expressa precisamente nessa assimetria: um fala, o outro existe.

É também digno de nota que a luz do versículo 3 é criada antes do sol e da lua (que surgem apenas no quarto dia, v. 14-19). Isso tem gerado debate, mas teologicamente aponta para o fato de que a luz não é dependente de seus portadores terrestres — ela tem uma realidade própria que o texto sugere ser fundamentalmente associada à presença e ao caráter de Deus (cf. 1 Jo 1:5: "Deus é luz").

Criação do Nada — A Doutrina Que Separa Tudo

Creatio ex nihilo e suas implicações

A doutrina da creatio ex nihilo — criação do absolutamente nada — não é explicitamente declarada em Gênesis 1:1 com essa terminologia, mas é a inferência teológica mais consistente com o texto e com o restante da Escritura. Hebreus 11:3 afirma: "pela fé entendemos que os mundos foram criados pela palavra de Deus, de maneira que o visível veio a existir das coisas que não aparecem." 2 Macabeus 7:28 é o texto que mais explicitamente afirma a criação do nada.

Karl Barth, ao refletir sobre a doutrina da criação, insistia que a creatio ex nihilo não é apenas uma afirmação cosmológica — é uma afirmação sobre a liberdade soberana de Deus e a graça que fundamenta toda a existência: "Deus não precisava criar. O fato de que criou — e que criou gratuitamente, sem necessidade, sem matéria preexistente — revela que a própria existência de qualquer coisa é um ato de graça. Existir é já ser objeto da graça de Deus."

Karl Barth — Dogmática Eclesiástica, III/1
"A criação não é uma necessidade de Deus, mas um ato de sua livre graça. Que exista algo em vez de nada é já o mais espantoso dos dons. E que esse algo seja criado para estar em relação com seu Criador — isso é a graça que antecede toda história da redenção."

Agostinho e as questões mais profundas

Agostinho, ao meditar sobre Gênesis 1 no livro XII das Confissões e no De Genesi ad Litteram, fez a pergunta que todos gostariam de fazer: "O que fazia Deus antes de criar?" E respondeu com perspicácia: a pergunta não faz sentido, porque "antes" pressupõe tempo, e o tempo é parte do que Deus criou. Não havia "antes" da criação — havia apenas Deus em sua eternidade. A criação não é apenas o início do cosmos; é o início do tempo.

Agostinho — Confissões, Livro XI
"Tu fizeste esse tempo, e antes de fazeres o tempo não havia tempo algum. Mas se não havia tempo antes do céu e da terra, por que perguntam o que fazias então? Não havia 'então' quando não havia tempo. Tu és anterior a todos os tempos passados, no sublime transcender de uma eternidade sempre presente."

Gênesis 1 e o Resto da Escritura: A Criação como Fundamento

Gênesis 1:1-3 não é um prólogo isolado — é o fundamento sobre o qual toda a Escritura subsequente se apoia. João 1:1-3 retoma deliberadamente o vocabulário de Gênesis: "No princípio era o Verbo... e pelo Verbo todas as coisas foram feitas." João está dizendo que o Verbo que disse "haja luz" em Gênesis é o mesmo Verbo que se fez carne em Jesus de Nazaré (Jo 1:14). A criação e a redenção têm o mesmo agente — e a nova criação (2 Co 5:17; Ap 21:5) é a culminação do projeto iniciado nas primeiras palavras da Bíblia.

Colossenses 1:15-17 é o texto cristológico mais denso sobre a criação: "Em Cristo foram criadas todas as coisas nos céus e na terra... tudo foi criado por ele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e em Cristo tudo subsiste." O "para ele" é teologicamente revolucionário: a criação não apenas veio de Cristo — ela tende para Cristo. O cosmos tem um telos cristológico. O universo foi criado não apenas como palco da história humana, mas como arena da glória de Cristo.

Isaías 40-55 retorna constantemente à criação como fundamento da confiança em Deus: "Não sabes, não tens ouvido? O Senhor é o Deus eterno, o Criador dos fins da terra" (Is 40:28). O argumento é sempre o mesmo: o Deus que criou o universo do nada é capaz de resgatar Israel do exílio. A potência criadora é a garantia da potência redentora.

João Calvino — Comentário a Gênesis 1:1
"Moisés começa com a criação do mundo não para saciar nossa curiosidade sobre origens, mas para fundar nossa fé na soberania de Deus sobre todas as coisas. Quem criou o céu e a terra governa o céu e a terra. E quem governa o céu e a terra é capaz de cumprir tudo o que prometeu ao seu povo."

Luz, Caos e Espírito: Uma Teologia da Esperança

O Espírito sobre o caos como imagem perene

A imagem do Espírito de Deus pairando sobre o caos primordial (tohu vavohu) é uma das mais poderosas da Escritura inteira — e uma das mais pastoralmente relevantes. Ela diz algo sobre o modo como Deus se relaciona com o caos: não o evitando, não o destruindo imediatamente, mas pairando sobre ele com presença ativa e intencional, aguardando o momento da Palavra que vai transformá-lo.

Martinho Lutero, ao refletir sobre Gênesis 1 em seus comentários, conectava o Espírito sobre as águas com a experiência do crente em meio à tribulação: "O mesmo Espírito que pairava sobre o caos primordial paira sobre o caos da vida cristã — sobre a confusão, o sofrimento, o 'sem forma e vazio' que às vezes descreve nossa existência. E da mesma forma que uma Palavra criou luz sobre aquele caos, a Palavra de Deus cria luz no caos de nossa vida."

Martinho Lutero — Comentário a Gênesis
"Assim como o Espírito pairava sobre as trevas e a confusão antes que Deus dissesse 'haja luz', assim ele paira sobre a consciência atormentada e o coração angustiado do pecador. E da mesma forma que não havia nada de que Deus pudesse fazer a terra antes da criação, não há nada em nós do qual ele necessite para a nova criação. Ele cria do nada."

A nova criação e o cristão

N. T. Wright, ao explorar a teologia paulina da nova criação, argumenta que o cristão é chamado a viver como cidadão do novo cosmos que já começou em Cristo: "Se alguém está em Cristo, é nova criação: as coisas antigas já passaram; eis que se tornaram novas" (2 Co 5:17). A linguagem de Gênesis 1 retorna — e o que era metáfora cosmológica torna-se realidade pessoal. A conversão é uma nova criação: o Espírito que pairava sobre as águas agora habita o coração, e a Palavra que disse "haja luz" age interiormente, separando a luz das trevas também dentro do ser humano.

N. T. Wright — Surpreendido pela Esperança
"A nova criação não é a destruição do cosmos antigo, mas sua renovação e transformação. Da mesma forma que o 'tohu vavohu' de Gênesis 1 não foi destruído, mas ordenado pela Palavra de Deus, assim a criação geme esperando a redenção — não o abandono, mas a glorificação."

Dietrich Bonhoeffer, em sua obra Criação e Queda — meditações teológicas sobre Gênesis 1-3 escritas em plena Alemanha nazista — via nos versículos iniciais uma afirmação de liberdade radical: "No princípio, Deus criou. Isso significa: nenhuma ordem terrena, nenhum regime humano, nenhuma ideologia pode reivindicar ser o princípio. Há apenas um princípio — e ele está fora e acima de toda a criação. A fé em Gênesis 1:1 é a libertação de todo absolutismo humano."

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Gênesis 1:1-3 é o fundamento sobre o qual toda a Bíblia se apoia e toda cosmovisão cristã se constrói. Ele afirma, em três versículos, o que nenhuma filosofia humana chegou por conta própria: que existe um Deus que é anterior a tudo, que criou tudo livremente do nada, que seu Espírito está presente sobre o caos, e que sua Palavra tem poder para fazer existir o que não existia.

Para o cristão, essas afirmações não são curiosidades teológicas — são âncoras existenciais. Quando a vida parece tohu vavohu — sem forma, vazia, caótica — o mesmo Espírito que pairava sobre o caos primordial ainda está presente. Quando a escuridão parece absoluta, o mesmo Deus que disse "haja luz" ainda fala. A nova criação começou em Cristo, e será consumada quando Deus fizer "novas todas as coisas" (Ap 21:5).

No princípio, criou Deus. E esse Deus ainda cria. Ainda ordena o caos. Ainda separa a luz das trevas. E a última página da Bíblia é, em certo sentido, o cumprimento do que a primeira prometia: um novo céu e uma nova terra onde tudo reflete a glória daquele que, no princípio, criou.

No Princípio, Criou Deus: A Criação como Fundamento de Toda Realidade

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