Uma meditação sobre a exigência mais radical do Sermão da Planície — e sobre a única razão pela qual ela é possível: a misericórdia do Pai que precede e fundamenta toda misericórdia humana
Existe uma experiência humana que todos conhecem — a do inimigo. Aquela pessoa que nos feriu sem razão suficiente, que agiu com injustiça, que aproveitou de nossa vulnerabilidade ou que simplesmente decidiu fazer-nos mal. A pergunta que Lucas 6:35-36 coloca diante do cristão não é se esse inimigo existe — é o que fazer com ele. E a resposta de Jesus é tão radical que, se fosse dita por qualquer outro, seria descartada como idealismo ingênuo: amai-os.
Mas o que torna essa exigência ainda mais perturbadora é o fundamento que Jesus apresenta para ela. Ele não diz "amem os inimigos porque isso é moralmente elevado" ou "porque fará bem à sua saúde emocional." Diz algo muito mais desconcertante: "sereis filhos do Altíssimo; porque ele é bondoso para com os ingratos e maus." O amor ao inimigo não é apenas um imperativo ético — é uma imitação de Deus. E isso muda completamente a natureza do que está sendo exigido.
O Sermão da Planície e a Comunidade que Lucas Descreve
Lucas 6 no contexto do terceiro evangelho
O que os estudiosos chamam de "Sermão da Planície" (Lc 6:17-49) é o equivalente lucaniano do "Sermão do Monte" mateano (Mt 5-7). As diferenças entre as duas versões têm gerado debate: enquanto Mateus apresenta um discurso mais longo e estruturado em cinco blocos, Lucas traz uma versão mais compacta, localizada em "um lugar plano" (v. 17) e com quatro bem-aventuranças e quatro "ais" correspondentes. A maioria dos estudiosos entende que Jesus ensinou essas verdades em múltiplos contextos, e que os dois evangelistas apresentam seleções e organizações que servem aos propósitos teológicos de cada obra.
Lucas escreve para uma audiência predominantemente gentílica, provavelmente comunidades cristãs do mundo greco-romano enfrentando marginalização social, tensão com a cultura circundante e, em alguns casos, hostilidade ativa. Isso torna o ensino sobre o amor aos inimigos especialmente relevante: Lucas está falando a pessoas que conheciam o que significava ser o lado mais fraco numa relação de poder.
Os versículos 35-36 chegam como o ápice de uma progressão argumentativa que começa no versículo 27. Jesus estabelece o princípio geral ("amai os vossos inimigos", v. 27), desenvolve suas implicações práticas (v. 27-34 — fazer bem, dar, emprestar), e então, nos versículos 35-36, revela o fundamento teológico que transforma toda a exigência: o caráter do Pai.
O que Jesus Está Dizendo — Exegese de Lucas 6:35-36
Agapate — o amor que não depende do objeto
O verbo central de Lucas 6:35 é agapate (ἀγαπᾶτε) — o imperativo plural de agapaō. No vocabulário do Novo Testamento, agapē descreve um amor que não é primariamente sentimento, mas orientação da vontade e da ação em direção ao bem do outro — independentemente de reciprocidade, simpatia ou mérito. É o tipo de amor que pode ser comandado precisamente porque não depende de uma emoção espontânea: pode ser escolhido e praticado mesmo na ausência de afeto natural.
Isso é crucial para entender o que Jesus não está exigindo. Ele não está pedindo que os discípulos fingam gostar de quem os feriu, que neguem a dor causada pela hostilidade do inimigo, ou que chamem de bem o que foi feito de mal. O agapate de Jesus é uma orientação da vontade — uma decisão de agir em favor do inimigo, de querer seu bem, de não retribuir o mal com mal.
A tríade de ações: amar, fazer o bem, emprestar
O versículo 35 desenvolve o amor ao inimigo em três verbos concretos: "amai (agapate), e fazei o bem (agathopoieite), e emprestai (danizete) sem esperar nenhuma paga." A progressão é deliberada: o amor se manifesta em ação (fazer o bem) e em disposição econômica (emprestar sem calcular o retorno). A referência ao empréstimo sem expectativa de retorno é especialmente provocativa no contexto cultural do primeiro século, onde o sistema de reciprocidade — dar para receber — era a lógica fundamental das relações sociais.
Jesus está rompendo com essa lógica. O amor que ele descreve não é um investimento social — não está calculando o que receberá em troca. Ele explicitamente antecipa o argumento contrário nos versículos 32-34: "Se amais os que vos amam, que recompensa tendes?... Se emprestais àqueles de quem esperais receber, que mérito haverá nisso? Também os pecadores emprestam aos pecadores." A distinção do discípulo não está na afetividade natural — está na capacidade de amar além do que a natureza humana não transformada consegue alcançar.
"Sereis filhos do Altíssimo" — identidade como fundamento, não como recompensa
A promessa de que aqueles que amam os inimigos "serão filhos do Altíssimo" (huioi hypsistou esesthe) merece atenção cuidadosa, pois pode ser mal entendida. Jesus não está dizendo que o amor ao inimigo produz a filiação divina — como se a salvação fosse conquistada pela prática da misericórdia. O contexto imediato revela que a relação é de demonstração, não de causação: os que amam os inimigos demonstram ser filhos do Altíssimo porque estão imitando o caráter do Pai.
A prova está na cláusula que se segue: "porque ele (hoti autos) é bondoso para com os ingratos e maus." O "porque" é explicativo — não diz "amai para que se tornem filhos," mas "amai os inimigos, pois isso é o que os filhos do Pai fazem, e o Pai é bondoso para com os ingratos e maus." A semelhança com o Pai revela a identidade; a identidade não é conquistada pela semelhança.
"Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso"
O versículo 36 é a síntese e o fundamento de tudo: Ginesthe oiktirmonoi kathōs kai ho patēr hymōn oiktirmōn estin — "Sede misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso." O verbo ginesthe (sede, tornai-vos) não é simplesmente um imperativo de ação — é um imperativo de ser. E o modelo é explícito: o Pai.
A palavra oiktirmon (misericordioso) em grego evoca compaixão profunda, sensibilidade ao sofrimento alheio que move à ação. No paralelo mateano do Sermão do Monte, encontramos "sede perfeitos, como perfeito é vosso Pai celestial" (Mt 5:48) — uma expressão ainda mais abrangente. Lucas usa "misericordioso" (que foca no aspecto específico do amor ao inimigo) onde Mateus usa "perfeito" (que abrange a integralidade do caráter divino). Ambas as formulações estão dizendo a mesma coisa: o padrão da vida cristã é o caráter de Deus revelado em sua relação com os que não merecem seu amor.
O Deus que Ama os Ingratos — Fundamento Teológico da Exigência
A afirmação de que Deus "é bondoso para com os ingratos e maus" é uma das declarações mais surpreendentes sobre o caráter divino em toda a narrativa de Lucas. Ela não é apenas um dado teológico abstrato — é a razão pela qual a exigência do versículo 35 é possível. O problema do amor ao inimigo não é primariamente ético; é teológico. E a solução que Jesus apresenta não é um esforço moral redobrado, mas um encontro com quem Deus é.
O Salmo 145:9 havia declarado: "O Senhor é bom para com todos, e as suas misericórdias estão sobre todas as suas obras." Jesus retoma essa tradição veterotestamentária e a aprofunda: Deus envia chuva sobre justos e injustos (Mt 5:45), faz o sol nascer sobre bons e maus — e, mais profundamente, enviou seu próprio Filho enquanto ainda éramos inimigos (Rm 5:8-10). A misericórdia de Deus não é uma resposta ao mérito humano; é uma expressão de sua natureza que antecede qualquer merecimento.
Paulo articula isso em Romanos 5:8-10 com uma clareza que ecoa diretamente Lucas 6:35-36: "Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores." O inimigo de Deus não é aquele que recebe apenas tolerância divina — é aquele por quem Deus pagou o preço máximo. Esse é o padrão que Jesus coloca diante dos discípulos.
D. A. Carson, ao refletir sobre o fundamento da ética cristã, argumenta que o único fundamento sustentável para o amor ao inimigo é a compreensão do que Deus fez por nós quando éramos seus inimigos. A ética cristã genuína não nasce do esforço moral, mas da gratidão transformadora — de ter compreendido que somos amados por Deus não por nosso mérito, mas apesar de nossa falta de mérito. Quem verdadeiramente entende isso começa a enxergar os inimigos com os olhos com que Deus o enxergava.
A Tentação de Domesticar o Texto
Dois equívocos frequentes
Lucas 6:35-36 tem sido sistematicamente domesticado por leituras que escondem o escândalo de sua exigência. Vale identificar dois dos equívocos mais comuns.
O primeiro é a interpretação puramente sentimental: amar os inimigos significaria "ter bons sentimentos" em relação a eles, cultivar emoções positivas diante de quem nos fez mal. Mas como vimos, o agapē que Jesus comanda não é primariamente emocional — é volitivo. Ele não pede que o discípulo negue sua dor ou finja não ter sido ferido. Pede que aja em favor do inimigo independentemente do estado emocional. Isso é mais difícil do que sentir algo agradável — e mais concreto.
O segundo equívoco é o esvaziamento realista: "Jesus estava usando hipérbole para descrever um ideal inatingível — a aplicação real seria apenas não nutrir ódio ativo." Essa leitura confortável contradiz o próprio texto, que lista ações específicas (fazer o bem, emprestar) e promete consequências reais ("grande será o vosso galardão"). Jesus não está descrevendo um ideal contemplativo; está descrevendo práticas concretas de relacionamento com quem nos faz mal.
O que o texto não está dizendo
É importante, por honestidade exegética, notar o que Lucas 6:35-36 não está dizendo. Não está dizendo que o cristão deve suprimir qualquer senso de justiça ou fingir que o mal não foi mal. O mesmo Lucas que registra esse ensino registra Jesus confrontando autoridades injustas (Lc 11:42-52), expulsando vendedores do templo (Lc 19:45-46) e advertindo sobre julgamento (Lc 12:4-5). Amar o inimigo não equivale a aprovar o mal que ele faz, a silenciar diante da injustiça ou a abdicar de toda busca por responsabilização legal.
O que o texto exige é que o bem do inimigo seja desejado e buscado — que o coração do discípulo não almeje a destruição daquele que lhe fez mal, mas sua conversão, seu florescimento, sua paz. Isso pode coexistir com o desejo de justiça e com a denúncia profética do mal.
A Imitação de Deus e a Vida Transformada
John Stott, ao comentar sobre o paralelo mateano de Lucas 6:35-36, entendia que o chamado à imitação do Pai em sua misericórdia representa o coração da ética cristã do Novo Testamento. Para Stott, o que distingue a moralidade cristã de toda moralidade puramente filosófica é precisamente esse fundamento: o cristão não imita um ideal abstrato, mas o caráter pessoal de um Deus que se revelou em Cristo. A diferença entre "seja bondoso porque a bondade é uma virtude" e "seja bondoso como vosso Pai é bondoso" é a diferença entre ética como conquista humana e ética como resposta à revelação divina.
Dietrich Bonhoeffer, em seu comentário ao Sermão do Monte, insistia que o mandamento do amor ao inimigo só pode ser cumprido por aqueles que estão em Cristo — porque é em Cristo que a natureza do discípulo começa a ser conformada à natureza do Pai. Bonhoeffer entendia que tentar cumprir Lucas 6:35-36 pela força da vontade moral, sem a transformação interior que o Espírito realiza, resultaria inevitavelmente em desânimo ou em performance vazia. A exigência de Jesus pressupõe uma obra interior que não é do crente — é do Espírito que o conforma à imagem do Filho (Rm 8:29).
A conexão com Romanos 12:14-21 é inescapável: "Bendizei os que vos perseguem... Não pagueis a ninguém mal por mal... Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem." Paulo está desenvolvendo, numa carta escrita décadas depois, o ensino que Jesus havia dado no início de seu ministério. O amor ao inimigo não é um requisito impossível lançado como teste — é a descrição da comunidade que foi transformada pelo evangelho e que agora reflete, ainda que imperfeitamente, o caráter daquele que amou seus inimigos até a morte na cruz.
Lucas 6:35-36 é, ao mesmo tempo, a exigência mais difícil e a revelação mais profunda dos evangelhos sobre o caráter de Deus. É difícil porque vai contra tudo que a natureza humana não transformada quer fazer diante do inimigo. É profunda porque o fundamento que Jesus apresenta para ela — o Pai que é bondoso para com os ingratos e maus — é a mesma graça que nos alcançou quando ainda éramos inimigos de Deus.Ninguém consegue cumprir esse texto sozinho. Não pela força de vontade, não pela disciplina espiritual isolada, não pelo esforço moral. O amor ao inimigo nasce do encontro com o Deus que amou seus inimigos — e só pode ser praticado de forma genuína por quem foi tocado por essa misericórdia de modo suficientemente profundo para começar a enxergar o próprio inimigo como aquele por quem Cristo também morreu.Que a meditação sobre Lucas 6:35-36 não nos deixe apenas com a consciência de nossa falha, mas com a visão do Pai que enviou o Filho quando ainda éramos maus e ingratos — e com o desejo de que essa misericórdia recebida se torne, ainda que imperfeitamente, misericórdia oferecida.
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